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terça-feira, 13 de agosto de 2013

MESA REDONDA: O “OFÍCIO DO ANTROPÓLOGO” NA PESQUISA COM CRIANÇAS.


MESA REDONDA: O “OFÍCIO DO ANTROPÓLOGO” NA PESQUISA COM CRIANÇAS.

Coordenadora:  Flávia Pires (UFPB/Sheffield University). 
Expositores: Adriana Viana (Museu Nacional/UFRJ), Liana Lewis (UFPE) e Flávia Pires (UFPB/Sheffield University).
O objetivo da MR é debater pesquisas que levem em conta a metodologia na pesquisa que envolve crianças, colocando em cheque o “ofício do antropólogo” através dos dilemas, desafios e vantagens colocados quando os nativos são crianças. Após vários esforços, a partir dos anos 1960, para reparar o negligenciamento das crianças como objetivos e sujeitos de pesquisa legítimos, a Antropologia da Criança continuou, de certo modo, sendo considerado um tema de importância marginal. Contudo, é notável uma crescente valorização dos estudos sobre a infância como um tema central na construção de um novo paradigma que visa compreender a natureza sócio-cultural da criança, tratando-a como agente e sujeito. A MR promoverá um debate sobre os universos das crianças e do fenômeno social da infância sob a ótica da antropologia, a partir de três contextos de pesquisa diferentes.

Mais informações no link: http://semanadeantropologia.wix.com/

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Centre for Anthropological Research on Childhood, Youth and Education (CARCYE)

O "Centre for Child-focused Anthropological Research - C-FAR", postado aqui no blog em abril do ano passado, mudou o nome para "Centre for Anthropological Research on Childhood, Youth and Education (CARCYE)". Por isso, reposto as informações abaixo:

Centre for Anthropological Research on Childhood, Youth and Education (CARCYE)

Brunel University - London

The Centre for Anthropological Research on Childhood, Youth and Education (CARCYE) was founded in the Department of Human Sciences at Brunel University in 1999. The Centre was established with a 'seedcom' grant from the Diana, Princess of Wales Memorial Fund to the Royal Anthopological Institute.

HISTORY & DIRECTION

  • To consolidate and build a comparative international approach to child-focused anthropological research.
  • To make this approach applicable to varied settings including those where children are at risk from war, famine, dislocation, abuse, deprivation, physical and mental ill-health.
  • To incorporate and address national and international policy and practices relating to issues such as child labour, education and social welfare, family life and children's rights.
  • To raise the profile of such research, disseminate its findings, and promote their contribution to understanding about how to change children's lives in terms of locally relevant criteria.
  • To inform national debate about issues pertaining to the nature of childhood in the 21stC.

RESEARCH INTERESTS
The interests of the Centre are closely associated with the delivery of the Anthropology of Childhood, Youth and Education MSc. This degree is designed to show postgraduate students how anthropological approaches can be used to gain access to and understand children’s lived experience, their ideas about the world and themselves, and their relations with peers, adults, and the wider society.





Information and image transcribed from the website. Click here to visit.
Informações e imagem retiradas do site. Clique aqui para visitá-lo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Congreso ALA 2012 - Antropologías en Movimiento



III Congreso Latinoamericano de Antropología
 
Antropologías en Movimiento
Ideas desde un sur contemporáneo


5 - 9 de noviembre de 2012
Santiago y Temuco - Chile


Primera Circular:

La Asociación Latinoamericana de Antropología (ALA) y el Colegio de Antropólogos de Chile invitan al Tercer Congreso Latinoamericano de Antropología “Antropologías en Movimiento: Ideas desde un sur contemporáneo”, a realizarse en Chile en las ciudades de Santiago y Temuco del 5 al 9 de noviembre de 2012. El congreso es organizado por la Universidad de Chile, Universidad de Concepción, Universidad Católica de Temuco, Universidad Academia de Humanismo Cristiano, Universidad Arcis, Universidad Alberto Hurtado y Universidad Austral de Chile.
Esta tercera versión del Congreso busca abordar de forma amplia el movimiento, noción que invita a dialogar acerca del que hacer antropológico en América Latina y el mundo, analizando sus trayectorias pasadas, presentes y futuras. El concepto de movimiento hace referencia a diversos campos de estudio. El desplazamiento de personas, las transformaciones sociales y culturales, así como la emergencia de identidades que constituyen temáticas antropológicas importantes planteando entre otros el problema del dinamismo y la interacción.
Mediante esta circular se invita, en primer lugar, a la presentación de simposios. El plazo de entrega es hasta el 10 de marzo de 2012. Cada propuesta debe presentar un título, un objetivo general, cinco palabras claves, un resumen de 300 palabras y un resumen del currículo de quienes proponen el simposio. Cada propuesta debe contar con una cantidad preliminar de cinco expositores. Cada expositor debe tener el grado mínimo de licenciado o equivalente, debe presentar un título de su ponencia y un resumen de 300 palabras. El número máximo de ponencias por simposio es limitado y será comunicado en una próxima circular. Las propuestas serán evaluadas por el Comité Académico del congreso, que tiene el derecho de aceptar, pedir modificaciones o rechazar los simposios en base a su calidad y relevancia.
Para comunicarse con el Comité Ejecutivo del Congreso se puede escribir a congresoala2012@gmail.com también se puede visitar su página en Facebook o su página principal en www.facso.uchile.cl/antropologia/ala2012 Para seguir las noticias del congreso, visite su cuenta de twitter @CongresoALA2012

Les saluda cordialmente,
Comité Ejecutivo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Coleção Práticas de Justiça e Diversidade Cultural

http://www.ufrgs.br/naci/

Coleção Práticas de Justiça e Diversidade Cultural

NACi/UFRGS

http://www.ufrgs.br/naci/


Cartografias da Imigração: Interculturalidade e Políticas Públicas
(org) Denise F. Jardim . Porto Alegre, Editora da Universidade, 2007

Antropólogos em Ação: Experimentos de Pesquisa em Direitos Humanos.
(orgs) Fleischer, S, Fonseca, C & Schuch, P. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2007.

Políticas de Proteçao à Infância: um olhar antropológico.
(orgs) Fonseca, C. & Schuch, P. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2009.

Práticas de Justiça: Antropologia dos modos de governo da infância e juventude no contexto pós-ECA.
Schuch, P. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2009.

Experiências, dilemas e desafios do fazer etnográfico contemporâneo. (orgs) Schuch, P., Vieira, M. & Peters, R. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2010.

Dinâmicas de Cidadania. Abordagens Etnográficas sobre a Diversidade. (Orgs) Chagas, Miriam & Müller, Cíntia B. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2010.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Centre for Child-focused Anthropological Research - C-FAR

Centre for Child-focused Anthropological Research - C-FAR

Brunel University - London

The Centre for Child-focused Anthropological Research - C-FAR was founded in the Department of Human Sciences at Brunel University in 1999. The Centre was established with a 'seedcom' grant from the Diana, Princess of Wales Memorial Fund to the Royal Anthopological Institute.

HISTORY & DIRECTION

  • To consolidate and build a comparative international approach to child-focused anthropological research.
  • To make this approach applicable to varied settings including those where children are at risk from war, famine, dislocation, abuse, deprivation, physical and mental ill-health.
  • To incorporate and address national and international policy and practices relating to issues such as child labour, education and social welfare, family life and children's rights.
  • To raise the profile of such research, disseminate its findings, and promote their contribution to understanding about how to change children's lives in terms of locally relevant criteria.
  • To inform national debate about issues pertaining to the nature of childhood in the 21stC.

RESEARCH INTERESTS
The interests of the Centre are closely associated with the delivery of the Anthropology of Childhood, Youth and Education MSc. This degree is designed to show postgraduate students how anthropological approaches can be used to gain access to and understand children’s lived experience, their ideas about the world and themselves, and their relations with peers, adults, and the wider society.



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Informações e imagem retiradas do site. Clique aqui para visitá-lo.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ainda sobre o documentário BABIES

Confesso que ainda não assisti o documentário, mas tenho lido muitos comentários na internet, que falam principalmente sobre a parte fotográfica do filme, com suas belas e encantadoras imagens.
Ontem li a crítica de um antropólogo, David F. Lancy, que realiza pesquisas sobre a infância e o papel dos pais e outras pessoas na transformação das crianças em adultos competentes. Seu trabalho pode ser conferido no blog Benign Neglect - An Anthropologist Looks at Contemporary Parenting. Vale a pena conferir o blog!
Abaixo, o texto do antropólogo sobre o Documentário BABIES, postado no seu blog. A postagem original pode ser conferida clicando neste link.


Babies: The Movie

How representative of the world's cultures is the documentary "Babies?" 

Almost from the moment the film was released, I was bombarded by queries from students, colleagues and friends: "Had I seen Babies and what did I think about it?" "Was it an accurate portrait of cross-cultural variation?" With all good intentions to satisfy their and my curiosity, I didn't actually see the film until I was on a flight to Madagascar last October. It seems that only while traveling at 900km/h was I able to slow down enough to take in a film.
First the facts. The documentary film is the work of French filmmaker Thomas Balmès and Studio Canal. The film records episodes in the first year of life of 4 babies from San Francisco, Tokyo, somewhere on the Mongolian Steppe and a remote area of Namibia. It was released in May 2010 and earned $7.3 million in its first two months of circulation. Its appeal arises from two factors-the babies!! and the excellent cinematography. Nearly every shot is framed by a baby and whatever else is in the vicinity or moving through the frame. So, in 75 minutes, you do begin to get a baby's perspective on the world.
I reviewed the film again last week for the benefit of a gathering of students. In the process, I paused it periodically to comment or reflect on aspects of culture that had been revealed. As in my classes, I tried to tease apart idiosyncratic, culturally patterned and universal aspects of childhood. The four cases are not particularly representative. The US and Japanese cases represent the modern elite: urbanized, educated, 2-parent, 1-child families. Lower class or slum communities (representing the fastest growing demographic in the world) were not represented. The Mongolian and Namibian cases are both nomadic herding cultures, leaving unrepresented foraging and farming as important subsistence types. How people make their living has an enormous bearing on the lives of children and accounts for much of the variability we can expect to see in any thorough comparison. Three of the four communities had access to modern, high-tech hygienic obstetrics care. I could only wish that this reflected the portion of the world's expectant mothers who had access to such care but it surely won't happen in my lifetime.
In at least one respect, the Japanese and US cases misrepresent the larger society they're drawn from and that is in showing fathers to be deeply involved with their new offspring. Father involvement with infants is extremely rare. The level shown here has been documented for only a single society in the world-the Aka pygmies in Central Africa. (1) Japanese fathers, whose work and leisure keep them from home, are not expected to participate in the lives of their children. And, government attempts to change that status quo have been a dismal failure. (2) Indeed, many seem to suffer from kitaku kyofu, an "allergic" reaction to their own homes. (3) The "new" fathers in Babies exemplify what the Swedes have (hopefully) called the "velveteen daddy phenomenon." (4)
The greatest anomaly of the film, for me was the extreme rarity with which mothers were shown to be working. One of the most important contributions of anthropology to the eradication of long-standing stereotypes was to demonstrate, through careful fieldwork, that women really are the breadwinners in most societies. It is only with the rise of plow agriculture and irrigation that men supersede women in their relative contribution to subsistence. (5) In Babies we catch a brief glimpse of the US mother in the kitchen, and of the Mongolian mother milking but, when we see women they are engaged in childcare or at ease with their offspring. A far more common scene would be one in which a mother treks home from a foraging or gardening expedition carrying her baby attached to her hip and a sack with her harvest on her back and, perhaps, a calabash with water or pile of firewood on her head. That is, women, almost universally, engage in infant care while doing something else or as a brief interlude in their labors.  
On the other hand, mothers of young children are also likely to have helpers or "alloparents" and we do see evidence of shared childcare, especially in the Himba village in Namibia where mothers are looking after and nursing others' offspring and older girls are looking after their younger kin.
Aside from the biases, I really enjoyed the film for its ability to get inside the baby's world. The scenes of sibling rivalry in Mongolia and Namibia were delightful and characteristic. I also appreciated the striking contrast between the relative autonomy of the Mongolian and Himba children contrasted with the US and Japanese children. While the Namibian babies crawl in the dirt, tasting whatever they find, Hattie, the US baby, is confined to a sling like apparatus which keeps here more or less stationery and off the ground. If you enjoy babies, you'll enjoy the film.

1. Hewlett, B. S. 1991. Intimate Fathers: The Nature and Context of Aka Pygmy Paternal-Infant Care. Ann Arbor, MI: University of Michigan Press.
2. Kingston, J. 2004. Japan's Quiet Transformation: Social Change and Civil Society in the Twenty-first Century. London: Routledge Curzon.
3. Jolivet, M. 1997.Japan: The Childless Society? The Crisis of Motherhood. London: Routledge.
4. Welles-Nyström, B. 1996. Scenes from a marriage: Equality ideology in Swedish family policy, maternal ethnotheories, and practice,' in Parents' Cultural Belief Systems: Their Origins, Expressions, and Consequences. S,. Harkness and C. M. Super (Eds), pp. 192-214. New York: The Guilford Press.
5. Boserup, E. 1970. Women's Role in Economic Development. London: Allen & Unwin.

domingo, 17 de abril de 2011

Criança como índice versus criança como agente.

Criança como índice versus criança como agente.
 
Extrato retirado do artigo da antropóloga Flávia Pires: "O que as crianças podem fazer pela antropologia?" 

Referência do artigo completo:
PIRES, Flávia. O que as crianças podem fazer pela antropologia? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 16, n. 34, p. 137-157, jul./dez. 2010.

Para acessar a revista onde se encontra disponível o artigo, clique aqui.


A socialização poderia ser pensada como a aquisição gradativa de conhecimentos sobre determinado assunto. A criança, ser passivo, aprende. O adulto, ser ativo, ensina. A relação seria unilateral e não comportaria direções contrárias. A linha do conhecimento viria, literalmente, de cima para baixo. A cultura se adquiriria em um processo semelhante. A criança – um ser associal em quem a cultura será inculcada. O trabalho de socialização das crianças seria visto como um mecanismo progressivo de aquisição de cultura. Essa maneira de pensar repousa sobre a definição do adulto portador de cultura, do bebê enquanto ser associal e da criança enquanto ser se tornando social à medida da inculcação dos padrões de comportamento culturais de sua região natal. Nesse sentido, cultura é algo que se adquire, que está localizada no mundo dos adultos e cabe a eles passá-la adiante. A cultura teria um remetente e destinatário, assim como um endereço fixo.
Uma antropologia comprometida com um conceito de cultura substantivado e, consequentemente, pouco dinâmico, produziu estudos sobre crianças que privilegiaram a visão de socialização infantil como mecanismo gradativo de obtenção de cultura. Foram os estudos onde as crianças eram tratadas como índices do mundo adulto (Rapport; Overing, 2000).20 Strathern e Toren (Strathern et al., 1996) mostram que nesse esquema considerado obsoleto (sociedade como entidade) é a cultura que vai “socializar” os indivíduos, tornando-os seres sociais. Parte-se do princípio de um reino natural e externo a ser “socializado” pelo mundo da cultura ou do social. A educação das crianças foi pensada a partir desse modelo, na medida em que elas eram consideradas parte de um mundo natural, reino da biologia, reino dos instintos. Para Toren, a noção de socialização tem origem no século XIX e está presente em todos os modelos europeus que visavam a educação infantil do século XX, desde o de Freud ao de Skinner (Strathern et al., 1996, p. 73). Além disso, ela foi construída a partir de uma noção cristã da Idade Média de que a criança deveria ser moldada como a argila ou o betume. A partir da sua inserção gradativa na sociedade as crianças iriam se tornando seres sociais. Aprenderiam a falar, a andar, a comer à mesa e muito mais tarde teriam uma profissão que definiria seu lugar no mundo social. Doravante, ela será tanto mais social quanto mais bem-sucedida for no mundo social. A criança seria, gradativamente, “moldada” pelos adultos.
É contra essa concepção de socialização que vem falando Toren (ou domesticação, nas palavras de Ingold). O processo pelo qual nos tornamos quem somos difere radicalmente, nos termos de Toren (1999), da chamada “socialização” que tem como objetivo formar seres padronizados, através da inculcação da cultura. Os sistemas autopoiéticos produzem seres únicos, já que nenhuma história de encontros com os outros organismos é idêntica, nem mesmo no caso de gêmeos intrauterinos. Por isso, não há como determinar como a criança será no futuro, já que o que acontece no processo micro-histórico escapa às previsões dos pais e dos especialistas. A forma como Ingold e Hallam (2007, p. 1, tradução minha, grifo dos autores) introduzem seu livro Criativity and cultural improvisation pode ser transcrita aqui: “Não há roteiro para a vida social e cultural. […] Em uma palavra, […] tem que improvisar.”
O que quero propor é que esses conceitos de cultura e sociedade, implicados na noção de socialização, tal como descrita previamente, não parecem dar conta de compreender o que se passa no mundo adulto nem, muito menos, no mundo infantil. A cultura não reside estática na cabeça dos adultos, esperando ser enviada passivamente para as cabeças infantis. Abordagens sobre a infância que tratam as crianças como agentes sociais, produtores de cultura e personagens históricos (só para citar alguns exemplos: Bluebond-Langner, 1978; Briggs, 1992; Cohn, 2002; Corsaro, 2003, 2005; Nascimento, 2007; Nunes, 1999; Pires, 2009; Tassinari, 2001; Toren, 1990, 1999), levam em consideração que: 1) não há uma idade única para o aprendizado cultural: não apenas as crianças aprendem, mas os adultos não cessam de aprender; 2) as crianças aprendem tanto quanto ensinam, dos/aos seus pares e dos/aos adultos; 3) aprendizagem não se faz apenas por via consciente e racional, mas também através de outras maneiras de conhecer e aprender.
O conceito de cultura e de sociedade adequado a essas três afirmações parte da ideia de que não há uma cultura estática a ser ensinada ou passada de pai para filho. A cultura seria, então, algo dinâmico que se constitui a cada momento. Ela não existe enquanto um a priori, senão a cada momento em que é atualizada. Aprofundar estes tópicos parece-me essencial para o desenvolvimento dessa área de estudos, e poderá também contribuir sobremaneira para a antropologia de modo geral.
Além disso, pensar as crianças como organismos, nas palavras de Ingold, ou como sistemas autopoiéticos, nas palavras de Maturana e Varela retomadas por Toren, são possibilidades que nos levariam a, em outras palavras, tomar as crianças como agentes e, dessa forma, ultrapassar o conceito de cultura no qual as crianças só tinham lugar enquanto índices do mundo adulto.
Uma das possíveis contribuições dos estudos sobre crianças para a antropologia é que eles podem evidenciar a natureza dual do ser social, produtor e reprodutor de cultura. Seria inocência acreditar que a agência infantil é absoluta, e autores como Alan Prout (2005), um dos pais dos New social studies of childhood, já o reconheceram. As crianças dependem dos adultos. Elas são inseridas em um mundo de adultos, um mundo onde são os adultos que, geralmente, dão a última palavra. Por outro lado, algumas pesquisas na área da antropologia da criança e da infância vêm tentando, desde as duas últimas décadas do século passado, explorar o que há de ativo nos primeiros anos de vida do indivíduo, em que medida as crianças são autônomas, em que medida seu mundo não é um mundo adulto em miniatura. O livro Crianças indígenas: ensaios antropológicos (Silva; Macedo; Nunes, 2002), por exemplo, é uma dessas tentativas. Nesse livro, a partir de várias pesquisas de campo em sociedades indígenas, os autores vão tecendo uma vasta rede de agência infantil. Para citar apenas alguns exemplos: Aracy Lopes da Silva (2002) chama as crianças de pequenos “xamãs”: porta de entrada do novo na comunidade, já que as crianças propõem soluções criativas para problemas da comunidade. Mariana Kawall Leal Ferreira (2002) apresenta crianças submetidas a situação de miséria que inventam uma outra maneira de ganhar a vida, muito diferente daquela esperada pelos seus pais. Outro exemplo se dá em diferente contexto etnográfico, como mostra Toren (1999, p. 87-101) a respeito de Fiji; as crianças concebem o mundo de maneira distinta dos adultos: no ritual da yaqona a visão das crianças difere radicalmente das dos adultos. Assim, se de um lado as crianças são conformadas por um mundo de adultos, por outro lado elas conformam o mundo dos adultos. Entretanto, a pergunta que precisamos nos fazer, enquanto antropólogos que estudam crianças, é: mas não é assim em todas as fases da vida? Os adultos também não conformam a realidade social e são conformados por ela?
O que quero propor é que crianças (e adultos) sejam pensados dinamicamente em relação à influência chamada cultural ou social. Se, através de pesquisas etnográficas, for possível demonstrar a validade dessas três afirmações apresentadas anteriormente, poderíamos dizer que já não estaríamos operando com o conceito de cultura ou sociedade enquanto uma entidade, o que parece ter sido a tônica nos estudos de criança como índice. Estaríamos pensando a cultura e a sociedade antes de tudo como uma relação, seja entre crianças-adultos, crianças-crianças ou adultos-adultos. Indo na direção dos estudos da antropologia da criança e da infância que tratam as crianças como agentes sem, no entanto, simplesmente inverter do polo coletivista para o polo individualista. É sobre isso que me deterei agora.
Ao tratar as crianças como agentes corre-se o risco de simplesmente inverter o pêndulo da sociedade para o indivíduo sem conceber mudança teórica significativa. Strathern (Strathern et al., 1996) alertou sobre a obsolescência pragmática do conceito de sociedade justamente porque ele engendra uma série de outros conceitos, entre os quais o de indivíduo, também comprometido com uma ideia de sociedade como entidade, na medida em que a sociedade é concebida como um todo onde os indivíduos constituem as partes. Simplesmente passar da abstração da sociedade para uma abordagem na qual o indivíduo constitui o centro absoluto não modifica em muito o quadro. Quando Margaret Thatcher diz: “A sociedade não existe. Há homens e mulheres individuais e há suas famílias”,25 ela julga ter resolvido o problema: extingue-se a sociedade, uma abstração, e constituem-se os indivíduos, consumidores reais no mercado livre. Strathern mostra, ao contrário, que o conceito de sociedade está intrinsecamente ligado ao conceito de indivíduo e que para fugir de um deles não é sufi ciente ou possível esconder-se atrás do outro.
Para Strathern (Strathern et al., 1996, p. 66, tradução minha), “o primeiro passo é apreender as pessoas como, ao mesmo tempo, contendo o potencial para relacionamentos e sempre embebidas em uma matriz de relações com os outros”.26 Não se trata de conceber um individualismo radical a partir dos estudos das crianças. Trata-se de estar ciente da criança como sujeito ativo em seu próprio mundo social (note-se: o mundo da criança também é social, Ingold concordaria) e não como um ser passivo às margens de um mundo social dos adultos.27 Toren (Strathern et al., 1996) propõe a noção de “sociality” no lugar da de sociedade. Embora também estejamos frente a uma abstração, a “sociality” denota processos sociais dinâmicos nos quais as pessoas estão inseridas. A ideia de sociedade, da qual a de socialização é filha, denota um conjunto de regras/costumes/estruturas/sentidos que existem como um sistema independentemente do indivíduo que será socializado (Strathern et al., 1996, p. 74). Toren trabalha contra a ideia de um bebê enquanto uma tabula rasa, na qual uma sociedade (ou uma cultura), abstrata e descorporificada, será inscrita. Alternativamente, o caminho proposto é outro:

Vamos tomar uma nova perspectiva – de onde, no coração de nossos estudos, nós colocamos pessoas que, como sujeitos históricos ativos e objetos da ação de outras pessoas, são ao mesmo tempo produtos e produtores de significados infinitamente variáveis, mas não arbitrários. (Strathern et al., 1996, p. 76, tradução minha).

Para acessar a revista onde se encontra disponível o artigo, clique aqui.